Entrevista: Roberto Paixão, novo Coordenador de Judô Inclusivo da FJERJ
Atleta paralímpico vitorioso e representante da luta pela integração através do esporte, o sensei falou sobre seus sentimentos, objetivos e referências na nova missão
* por Diano Albernaz Massarani
O ano era 1991, e o menino Roberto Paixão, aos 15 anos de idade e cego desde os 2, vivia o mundo dos esportes no Instituto Benjamin Constant. De Futebol a Atletismo, passou por diversas modalidades, mas foi se apaixonar mesmo pelo Judô, sob os ensinamentos dos professores Osmar da Silva e Carmelino. E não tardou para começar uma vitoriosa carreira como atleta paralímpico, que hoje soma medalhas em campeonatos mundiais e pan-americanos, além de dezenas de láureas em competições nacionais. A faixa preta veio em 2001, junto ao sensei Ricardo Pupo, e desde 2009 é filiado ao Judô Clube Leonardo Lara, por onde realizou toda a jornada até o 4º Dan, obtido em 2022. Fora dos tatames, a trajetória de Roberto Paixão é igualmente significativa.
A lista de atuação representando as pessoas com deficiência e contribuindo para um esporte cada vez mais inclusivo é longa. Atualmente, Roberto Paixão é diretor-presidente da associação Urece Esporte e Cultura, participa da mesa diretora do Conselho Estadual da pessoa com ceficiência, integra o Conselho Municipal dos direitos das pessoas com deficiência, é conselheiro nacional do direito das pessoas com deficiência representando o Rio de Janeiro, está como secretário de desporto e lazer da organização nacional de cegos do Brasil e representa os atletas do Judô como conselheiro da Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais.
Atleta paralímpico vitorioso dentro dos tatames e representante da luta pela inclusão através do esporte, Roberto Paixão foi nomeado pela Federação de Judô do Estado do Rio de Janeiro como Coordenador de Judô Inclusivo, e falou sobre sobre seus sentimentos, objetivos e referências na nova missão.
Neste momento de sua trajetória, pessoalmente, o que significa ser nomeado Coordenador de Judô Inclusivo da Federação de Judô do Estado do Rio de Janeiro?
Para mim, ser nomeado coordenador de uma Federação que eu admiro e poder contribuir com a comunidade judoística do Rio de Janeiro é um grande, grande, grande feito. Ao mesmo tempo em que é uma honra, é também um desafio e uma grande responsabilidade, porque vou estar trabalhando para a Federação, para a comunidade do Judô Rio e para as pessoas com deficiência do Estado do Rio de Janeiro. É a primeira vez que a Federação terá uma pessoa com deficiência ocupando um cargo de coordenação, e avalio esta decisão de forma muito positiva. Tem um jargão que costumo falar que é “nada de nós, sem nós”, e, sendo uma pessoa com deficiência, estarei junto com a Federação falando pelas pessoas com deficência, representando as pessoas com deficência e construindo para pessoas com deficência.
Como Coordenador de Judô Inclusivo, quais as medidas que você considera fundamentais para levar adiante as ações que buscam aumentar a participação das pessoas com deficiência no Judô Rio?
Com certeza eu sei da importância de ter atletas representando o Rio de Janeiro em seleções brasileiras e subindo ao pódio, mas tenho propostas que vão além deste cenário competitivo e buscam incentivar mais e mais pessoas com deficiência a praticarem o Judô e terem o Judô como legado para a vida. Eu tenho isso como experiência própria, e conheço a história de muitos amigos, com os mais diferentes tipos de deficiência, que tiveram, através do Judô, um ganho extraordinário em termos de socialização e capacidade motora. O Judô é para todos, e minha prioridade é trabalhar junto com a Federação para que cada vez mais as agremiações afiliadas abram as suas portas para receber pessoas com dificiência e as suas famílias.
Levando em consideração a sua longa jornada no Judô do Rio de Janeiro, quais mestres são as suas referências, os seus modelos, para você buscar seus objetivos como Coordenador do Judô Inclusivo?
A própria diretoria da Federação tem, hoje, dois mestres pelos quais eu tenho enorme consideração: os sensei Jeferson Vieira e Leonardo Lara. No início dos anos 2000, o sensei Jeferson viajou muito comigo e me passou muitas orientações quando ele era árbitro e eu, atleta da seleção brasileira. Já sobre o sensei Lara, eu o conheço há quase 20 anos e trocamos muitas experiências, pois estou em sua agremiação desde 2009.
Gostaria de mencionar também dois antigos presidentes da Federação. O sensei Jucinei Costa, que foi meu treinador na área técnica por diversas vezes na seleção brasileira e se tornou uma referência. E tem mais o sensei Ney Wilson, que abriu as portas de clubes como o Vasco e o Sion para pessoas com deficiência visual treinarem, acreditou no nosso potencial e nos ensinou muito. E não posso esquecer do sensei Ricardo Pupo, um grande mestre que tenho como referência e que sempre acredita no potencial das pessoas com deficiência.
Por qual realização você mais gostaria de ser lembrado pela comunidade do Judô Rio após a sua gestão como Coordenador de Judô Inclusivo?
Depois desta trajetória, eu gostaria de ser lembrado como uma pessoa que deixou um legado de mais participações efetivas das pessoas com deficiência. Sem aquela ideia de coitadismo, sem aquela ideia de assistencialismo, mas que tenhamos mais pessoas engajadas, maior participação e maior quebra de paradigmas das pessoas com deficiência. Se a gente conseguir uma federação ainda mais inclusiva para qualquer pessoa, acredito que terei feito um grande trabalho junto com o corpo técnico e com os professores dentro da nossa Federação.
