Entrevista: Sérgio dos Santos, vice-diretor do Centro Educacional José de Paiva Netto – LBV

Sensei falou sobre a história da agremiação vencedora da 2ª etapa do Circuito Hajime e dos aspectos lúdicos e educativos do Judô na rotina dos alunos
* por Diano Albernaz Massarani

Com 64 inscritos e 56 pontos, o Centro Educacional José de Paiva Netto – LBV conquistou a 2ª etapa do Circuito Hajime 2026, realizada no fim de semana de 23 e 24 de maio, no Olaria Atlético Clube, terminando à frente de Umbra – Club de Regatas Vasco da Gama (66 inscritos e 46 pontos), Associação Judô Zoshikan Helio de Oliveira (41 inscritos e 41 pontos), Judô Comunitário Instituto Reação (36 inscritos e 20 pontos) e Judô Comunitário Lar Fabiano de Cristo (33 inscritos e 19 pontos). Vice-Diretor da Escola e Coordenador de Esportes, o sensei Sérgio Felipe dos Santos Euzebio falou em entrevista ao portal do Judô Rio sobre a história da agremiação e dos aspectos lúdicos e educativos do Judô na rotina dos alunos

Qual a importância para o presente e para o futuro da agremiação de vencer uma competição da magnitude do Circuito Hajime?

Almejávamos há muito tempo uma conquista dessa magnitude. O Circuito Hajime é uma competição que possui o mesmo objetivo que temos em nossa escola: incentivar a prática esportiva, a inclusão e a formação cidadã por meio do esporte.

A conquista do Hajime representa todo o empenho da nossa escola e das famílias para conseguirem inscrever os alunos na competição, além da disciplina e dedicação dos atletas nos treinamentos e na manutenção de suas categorias.

Essa vitória premia principalmente as nossas famílias: cerca de 90% vivem nas comunidades ao redor da escola e muitas vezes não possuem condições de pagar uma mensalidade de Judô ou adquirir um judogi. Premia, também, a nossa escola, que sempre acreditou no Judô como uma poderosa ferramenta de inclusão, educação e transformação social, caminhando lado a lado com a proposta pedagógica da LBV (formada pela Pedagogia do Afeto e pela Pedagogia do Cidadão Ecumênico, escritas pelo educador José de Paiva Netto), trabalhada diariamente com nossos alunos.

É um trabalho iniciado em 2011 e que, hoje, em 2026, alcança esse grande feito dentro da Federação de Judô do Estado do Rio de Janeiro, com suas próprias pernas. Essa conquista não pertence apenas ao Centro Educacional José de Paiva Netto, da LBV, na cidade do Rio de Janeiro, mas às mais de 80 unidades da instituição no Brasil. É também uma conquista para o fundador da nossa escola, que sempre incentivou a oferta de esportes aos nossos alunos, por acreditar que o esporte é um instrumento que fomenta educação, cidadania e paz.

Poderia contar um pouco sobre como é o dia a dia da agremiação? Quantas turmas treinam diariamente? A maior parte dos registrados na agremiação é de crianças?

Nossa escola é uma instituição filantrópica que atende mais de 600 crianças e adolescentes, de comunidades (Complexo do Alemão, Maré, Jacaré, Manguinhos, entre outras regiões do Rio de Janeiro). Os alunos permanecem na escola em período integral, das 7h às 16h30, sendo uma parte do dia destinada ao pedagógico e no contraturno a oficinas diversificadas. Durante o período que permanecem na escola, recebem 4 refeições, com cardápio preparado diariamente por uma nutricionista, que também realiza avaliação antropométrica, com todos os alunos, 3 vezes ao ano. Todo o material escolar, apostilas, uniforme, alimentação e os períodos de atividades esportivas e culturais são oferecidos gratuitamente aos alunos.

A escola é mantida por doações captadas pela equipe de telemarketing da Legião da Boa Vontade, que realiza campanhas com toda a população carioca, pedindo doações em prol de famílias em situação de vulnerabilidade social, incluindo as da escola.

O Judô é aplicado inicialmente em formato de oficina, de maneira lúdica e educativa, com os alunos a partir de 4 anos de idade, buscando despertar o interesse e o amor pela modalidade. As atividades acontecem de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 16h, sob orientação da Sensei Pietra Rocha.

A partir dessas oficinas, os alunos que demonstram entendimento das técnicas, fundamentos e identificação com o esporte são convidados a treinamentos voltados à preparação para competições. Atualmente, temos mais de 130 alunos (divididos por turmas e classes) nos treinos das equipes, embora conseguimos registrar, oficialmente, na Federação, cerca de 70 atletas.

Além disso, mantemos um projeto noturno, que atende tanto alunos externos quanto alunos da própria instituição, buscando evolução técnica e melhor preparação competitiva. Os treinamentos são conduzidos pelos Senseis Vinicius Azevedo, Pietra Rocha e Sérgio Euzebio, este último atuando no período noturno.

Mesmo sendo uma escola, já conseguimos classificar atletas para Campeonatos Brasileiros, o que é motivo de grande orgulho para toda a nossa instituição. E mesmo quando o caminho não é o competitivo, seguimos formando cidadãos e bons profissionais. A própria Sensei Pietra Rocha foi nossa primeira aluna a ter a faixa preta e hoje é professora da escola. Além dela, já formamos outros três faixas pretas.

Outro ponto muito especial é a participação das famílias, que dão um verdadeiro show nas arquibancadas, apoiando e vibrando a cada competição. Elas criaram inclusive uma ação chamada “Piquenique do Judô”: cada família contribui com um alimento para compartilhar ao longo do dia da competição, onde participam todos os alunos (e até atletas de outras agremiações acabam participando). E quem não pode contribuir, também, participa da mesma forma. Somos, de fato, uma grande família.

Na sua avaliação, quais os benefícios para os meninos e meninas da agremiação de participar do Circuito Hajime? Eles ficam empolgados em participar das competições?

As competições movimentam muito a nossa escola, porque representam o momento em que os alunos querem mostrar aos pais e familiares que são capazes de superar desafios e conquistar seus objetivos.

Muitas vezes, devido à rotina das famílias, os alunos não conseguem ter durante a semana momentos tão especiais ao lado dos pais, quanto aqueles vividos nas competições. Com o passar da idade, também, cresce neles o sonho de conquistar resultados e de evoluir dentro do esporte.

Por isso, as competições não empolgam apenas os alunos, mas também todos os colaboradores da nossa própria escola, os profissionais das demais unidades da LBV e ainda quem não possui vínculo com a escola, mas é simpatizante do trabalho realizado. As pessoas conseguem enxergar, na prática, quantos valores estão sendo trabalhados com nossas crianças e adolescentes, levados pela pedagogia própria da instituição também no esporte que recebem.

Tudo isso está diretamente ligado à proposta do educador Paiva Netto de “uma visão além do intelecto”, ou seja: uma Educação com Espiritualidade Ecumênica.  Assim, nessa abrangência de respeito às tradições religiosas, etnias, orientação sexual e qualquer pensamento da comunidade escolar, nossos alunos aprendem que o Judô vai muito além das medalhas: ele ensina disciplina, respeito, perseverança, autocontrole e cidadania, indo ao encontro desta afirmativa que também é do fundador da nossa escola: “Esporte é Vida, não violência”. Queremos, com isso, contribuir com a formação de atletas cidadãos.

Quais são os principais valores que a agremiação busca passar no dia a dia para os judocas iniciantes? Existe uma busca por apresentar aos iniciantes os aspectos lúdico, educacional e competitivo do Judô?

Trabalhamos diariamente com valores éticos e ecumênicos, que possibilitem aos nossos alunos o respeito entre todos, a fim de se tornarem cidadãos de bem, independentemente de seguirem ou não o caminho competitivo no esporte.

Mostramos para eles que, para conquistar objetivos, é necessário empenho, dedicação, disciplina e perseverança. A base do nosso trabalho dentro da modalidade está diretamente ligada à Pedagogia da LBV, incentivadora da busca pelo desenvolvimento do aluno de maneira integral, não contemplando apenas o lado acadêmico/intelectual, mas também seus sentimentos.

Nas oficinas, ensinamos o Judô, inicialmente, de forma totalmente lúdica, despertando o interesse, a fim de que os alunos gostem de estar na sala deste esporte. A partir do vínculo que vão criando com a modalidade, eles começam a treinar de maneira mais técnica e, posteriormente, passam a competir.

Para nós, nossos alunos já são campeões, independentemente do resultado das competições, porque se dedicam para valer!

A nossa escola tem o lema: “Aqui se estuda. Formam-se cérebro e coração”. E nós, dentro do Judô, carregamos também esta frase ampliada, que representa muito o nosso trabalho: “Aqui se estuda: formam-se cérebro e coração de atletas e cidadãos”.

Todo esse ensinamento, empenho e dedicação vêm sendo passados, de geração em geração. É também uma forma de agradecer aos nossos Senseis por tudo o que fizeram por nós, fazendo agora por essas crianças e adolescentes.

Somos gratos a todos que confiam em nosso trabalho e em nossos atletas, Famílias, Colaboradores, Direção Escolar, Superintendência Educacional da LBV, nosso querido educador Paiva Netto (1941-2025), que dedicou 70 anos de sua vida à LBV, sendo seu Presidente por 46 anos, nos deixando um grande legado a ser honrado,  e ao jornalista Francisco Periotto, que segue, agora, na Presidência da instituição.

Deixe um comentário